Nossos nomes

15 12 2009

Essa memória é de mais aproximadamente uma década no passado, então perdoem-me se não for completamente fiel à realidade.

Eramos apenas crianças, sentadas na calçada, naquela noite de sexta.
Sempre fui a mais quieta, mas isso não me impediu de falar com você.
Criamos uma amizade muito forte em menos de dois dias, afinal, com seis anos, não tem muita maldade em um relacionamento.
Brincavamos de casamento, onde eu era o noivo e você a noiva, naquele vestido laranja que me fazia gargalhar euforicamente quando devia dizer os votos, fazendo-a perder a calma, mas logo você se via rindo junto comigo.
Em uma noite, sua mãe viu-nos fazendo aquela brincadeira e expulsou-me de sua casa.
Uma semana depois, vi-te encostada num poste, olhando pra mim e abaixo dos seus pés, cimento fresco.
Como toda a criança, fui desajeitadamente ajudar-lhe, tomando suas mãos e puxando-a com força daquele cimento que parecia rir de minha tentativa de tirá-la dele.
Finalmente o cimento cedeu, fazendo-nos cair de bunda no concreto.
-Vamos brincar de casamento?-disse ela.
-Mas eu não estou de noivo.-respondi.
-Não ligo.
-Tá bom então, mas antes deixa eu fazer uma coisa.
Estiquei o braço e peguei um galho de uma jasmim que havia sido plantada ali perto.
Olhei para o cimento hesitante, porém a vontade me venceu.
-Olha, escrevi nossos nomes.
Ela gargalhou, colocou minha mão na sua.
-Vamos brincar então?
Enrubesci completamente, assenti nervosamente.
Ela foi descendo a rua, me guiando através de suas mãos pequenas e quentes.

Laís Castro





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31 10 2009

- Em um relacionamento sadio, as pessoas mostram o pior e compensam com o melhor delas.
- Você conhece meu melhor.
- Não, eu não conheço você.
- Como assim?
- Você se esconde atrás dessa máscara de segredos e verdades omitidas.
- Sim, um dos meus defeitos.
- Mas é somente um. E o resto?
- O resto? O resto é o resto ué!
- Não, eu quero saber tudo sobre você. Quando me perguntam ‘Você conhece a Laís?’ me dá um aperto na garganta e eu tento responder que não, mas acabo dizendo que sim.
- Mas você me conhece!
- Não, ninguém te conhece de verdade, o que você realmente quer dizer com as palavras, o que esconde com suas piadas e gracinhas.
-… Quer dizer que você quer que eu ‘te deixe entrar’?
- Como assim?
- Que eu te deixe entrar na minha cabeça, que você conheça todos os meus defeitos e qualidades?
- Eu gostaria muito.
- Tudo bem, lá vai:
Eu tenho pés gelados, minha voz sai rouca por causa do cigarro e ela é naturalmente baixa, então tenho que forçar pra deixar ela num volume que as pessoas escutem. Eu amava meu pai, mas hoje em dia ele morreu pra mim.
Não sou daquelas pessoas que ficam tendo sonhos eróticos e acreditam que o amor é o melhor sentimento do mundo.
O que eu realmente procuro é paz.
- Paz?! Como assim?
- Paz. Ficar sem preocupações, ter alguns momentos de lucidez.Encontrar alguém que me faça sentir assim?…Não sei, acho que isso é, encontrar essa paz, coisa que se faz  sozinho.
- Você realmente escolhe suas palavras e não deixa as pessoas saberem o que você está pensando, não é?
- Sim…Eu gosto de observar as pessoas.Não sei o motivo, só me entretem. Não gosto de me meter no meio, só de observar os gestos, os sorrisos e outros. Gosto de ver se são falsos e , se não forem, aquilo me dá uma alegria interna, um calor. Acredito que sou uma pessoa que gosta das coisas de um modo simples. A tarde mais especial de minha vida foi somente uma tarde sem preocupações.
-Nossa…
- Podemos alugar o filme agora?
- Claro Laís, claro.

Laís Castro





Parábola

11 10 2009

Um dia,a Morte andava cabisbaixa quando encontrou a Verdade.
A Verdade perguntou-lhe: O que há,dona Morte?
A Morte respondeu-lhe: Sempre que encontro uma pessoa da minha lista,ela sai correndo e isso dificulta meu trabalho.
A Verdade disse-lhe com um sorriso no rosto:Lógico que correm,sua aparência não é das melhores,dona Morte.
Morte perguntou: Como assim?
Verdade respondeu-lhe com elegância:Você pode ficar com a aparência que quiser e se veste de caveira,isso assusta as pessoas,se a senhora se vestisse de um jeito menos agressivo,talvez seu trabalho fosse facilitado.
A Morte passou a usar a aparência de uma mulher com cabelos pretos rebeldes,olhos azuis,um tom de pele que se assemelhava à neve.
A Morte cruzou novamente com a Verdade,tempos depois,com sua nova aparência.
Morte disse à Verdade:O que você disse é verdade,após mudar minha aparência,meu trabalho tornou-se menos cansativo.
A Verdade somente sorriu e disse:É…Hoje em dia,são as aparências que importam.
A Verdade prosseguiu sua caminhada.

Laís Castro





Cinzas

9 10 2009

Olho no relógio,são 3 da manhã.
Não consigo dormir.
Levanto lentamente da cama,abro a janela e pulo para fora,levando comigo meus cigarros e isqueiro.
Vago pela beira do lago até achar um local onde possa me sentar,acender um cigarro e procurar aquela paz interior que há muito me abandonou.
As cinzas do meu cigarro caem nas minhas pernas,graciosamente,como folhas ao vento de uma madrugada gélida.
Os únicos ruídos provem do vento e da brasa do cigarro,são os únicos fatores que interrompem a quietude na calada da noite.
Deito de costas e observo as estrelas,que tem semelhança,mas não brilham mais que seus olhos,ou pelo menos me parece.
Escuto um farfalhar,não me incomodo em virar.
Penso em como o mundo pode ser injusto às vezes,fazendo desmoronar tudo que levamos anos construindo.
Decidi parar de fumar,dormir e não desperdiçar mais nanquim escrevendo meus pensamentos refusos e minhas tentativas alucinadas nos meus cadernos,indecifráveis como meus conceitos.

Laís Castro





Cartas

28 09 2009

Entrego-lhe nas mãos aquelas cartas,com borrões que minhas lágrimas estúpidas insistiram em fazer.
Sua mão pequena e fria encosta na minha e ,quase como impulso,recuo num pulo,como se você fosse algum ácido.
Você me olha assustada e lágrimas começam a rolar de seus olhos.
Eu já suspeitava que você sabia o conteúdo das cartas,mas não sabia que sua reação seria assim.
Será que eu realmente farei falta,então?
Desabo no chão,ver você chorar é a pior coisa que já me aconteceu,aquela menina forte,durona,independente.
Você deita sua cabeça delicada em meu ombro,que ,como o resto de meu corpo, é defeituoso e cria uma vala pra sua cabeça se encaixar.
Passaram-se horas e nós assim.
Será que você está pensando em outra coisa?
Será que sua cabecinha realmente vai sentir falta dessa coisa monstruosa que eu sou?

Laís Castro
ps:Pra você,menina dos olhos cor de mel,sorriso acanhado,amante de criaturas monstruosas como eu.





Tirar

26 09 2009

Tira esse sorriso estúpido da sua face imediatamente!
Não,não perdoarei as suas mentiras deslavadas,suas promessas desfeitas.
Tira esse sorisso lindo da minha frente,ele não vai me derreter,nem as palavras que me dão um nó na garganta seca,nem sua melancolia imbecíl que tenta me aproximar!
Vá!
Não vão ser seus olhos marejados que me farão ficar.
Não será seu sorriso quente.
O que me faz voltar?
Acho que talvez seu abraço,sempre gostei que você apoiasse sua cabeça no meu ombro enquanto eu gentilmente afagava sua cabeça.
Ou então foram seus lapsos,aqueles resquícios de como era antes.
Eu ainda não decidi,tentarei e eventualmente chegarei a uma decisão.
Eu espero.





Sentir

5 09 2009

Cheguei a um ponto onde não sinto prazer nem dor.
Não sinto prazer nos lábios carnudos alheios,não sinto prazer em desenhar,não sinto prazer em pintar.
Também não sinto dor,provavelmente deveria,já que não sinto prazer em nada que faço.
A dor física não me importa,não me machuca.
Não sinto.
Cheguei a pensar um dia “Devia ser insensível,isso sim”
A insensibilidade fez-me  sentir um vegetal.
Será que passará?
Cheguei nesse ponto,nesse abismo.
Abri meu tórax e joguei os sentimentos lá embaixo.
Esqueci  que joguei a coragem junto,não posso pular e pegar eles de volta.

Laís Dalyn





Assustar

1 09 2009

Você me assustou ontem.
Acordou com a pá virada,sei lá eu.
Amei ver você naquele espírito questionador,fez me interessar novamente por aquela mulher em que, eu acreditava, estava perdendo o interesse.
Parecia que todas as suas inseguranças eram ventos que haviam uivado e fugido de você.
Você me dá amor e terror ao mesmo tempo,sabe se lá como.
Questionou meu hábito de fumar,minhas ideologias,nem parecia a menina doce que se mostrava a todos.
Mas o que me assustou foi saber que a menina doce e insegura se foi.
Você não precisa mais da minha presença,meu ombro onde seus olhos marejados se acomodavam.
Arrumei minha mala e parti.

Laís Castro





Conto

25 08 2009

Eu andava na rua cantando baixinho aquela música,lembrando de você.
Avistei aquele casaco laranja que eu conhecia tão bem,retirei o fone de ouvido da minha orelha ensangüentada devido ao novo alargador.
Cumprimentei-a com um beijo nas bochechas macias e rosas,fiquei sem graça,como sempre.
Você estava particularmente radiante.
De repente,você passou a agir normalmente,como se até não tivesse sido sua escolha ignorar minha existência.
Apesar de você estar bem acompanhada,eu resolvi ficar por perto,aquele seu sorriso maroto me convidava a chegar perto.
Fiquei distante,deixando você e sua boa companhia em paz,olhando para o horizonte,observando as pessoas interagirem e  pensando em como nós já tinhamos feito coisas engraçadas naquela praça.
Lembrei-me de quando tentamos fumar charutos e eu quase tive um acesso de tosse,lembrei-me de tentar colocar a bolinha do seu piercing no lugar com um alicate num daqueles bancos brancos.
Você está feliz.
Só isso realmente me importa.

Laís Castro





Perder

20 08 2009

Parta,se essa é realmente sua vontade.
Não desejo prender seus braços aos meus se  esta não for sua vontade.
Eu realmente desejo que você fique,mas eu seria um monstro se te prendesse numa jaula e a impedisse de brilhar para o mundo como faz para mim.
Se seu sorriso é forçado ao meu lado,vá,seja feliz ao lado de quem quiser,você merece toda a felicidade desse mundo.
Se te perder irá doer?Sim,irá doer como um inferno,mas eu não ligo,contanto que veja seus olhos sem esta melancolia maldita que andam expressando.
Vá,voe para bem longe de mim e meu reino de trevas que apagam seu brilho,ilumine o mundo por mim,minha pequena.

Laís Castro