Essa memória é de mais aproximadamente uma década no passado, então perdoem-me se não for completamente fiel à realidade.
Eramos apenas crianças, sentadas na calçada, naquela noite de sexta.
Sempre fui a mais quieta, mas isso não me impediu de falar com você.
Criamos uma amizade muito forte em menos de dois dias, afinal, com seis anos, não tem muita maldade em um relacionamento.
Brincavamos de casamento, onde eu era o noivo e você a noiva, naquele vestido laranja que me fazia gargalhar euforicamente quando devia dizer os votos, fazendo-a perder a calma, mas logo você se via rindo junto comigo.
Em uma noite, sua mãe viu-nos fazendo aquela brincadeira e expulsou-me de sua casa.
Uma semana depois, vi-te encostada num poste, olhando pra mim e abaixo dos seus pés, cimento fresco.
Como toda a criança, fui desajeitadamente ajudar-lhe, tomando suas mãos e puxando-a com força daquele cimento que parecia rir de minha tentativa de tirá-la dele.
Finalmente o cimento cedeu, fazendo-nos cair de bunda no concreto.
-Vamos brincar de casamento?-disse ela.
-Mas eu não estou de noivo.-respondi.
-Não ligo.
-Tá bom então, mas antes deixa eu fazer uma coisa.
Estiquei o braço e peguei um galho de uma jasmim que havia sido plantada ali perto.
Olhei para o cimento hesitante, porém a vontade me venceu.
-Olha, escrevi nossos nomes.
Ela gargalhou, colocou minha mão na sua.
-Vamos brincar então?
Enrubesci completamente, assenti nervosamente.
Ela foi descendo a rua, me guiando através de suas mãos pequenas e quentes.
Laís Castro